Passo a explicar. Para tal, servir-me-ei das palavras de Fernando Savater, filósofo e grande pedagogo espanhol, no seu livro "O Valor de Educar" [pp.52-54]. São elas que melhor dirão dos objectivos & intenções deste blogue. Ei-las:
«Em linhas gerais, a educação, orientada para a formação da alma e para a transmissão do respeito pelos valores morais e patrióticos foi sempre considerada de um nível superior ao da instrução, destinada a dar a conhecer competências técnicas ou teorias científicas. (...)
Em contraposição, educação versus instrução, parece hoje notavelmente obsoleta e bastante enganadora. (...). Sucede ainda que separar a educação da instrução se mostra não só indesejável, mas igualmente impossível, uma vez que não se pode instruir sem educar e vice-versa. Como poderemos transmitir valores morais ou de cidadania sem recorrermos a informações históricas, sem termos em conta as leis em vigor e o sistema de governo estabelecido, sem falarmos de outras culturas e países, sem reflectirmos, por elementarmente que seja, sobre a psicologia e a fisiologia humanas ou em empregarmos algumas noções de informação filosófica? E como poderemos instruir alguém em matéria de conhecimentos científicos, se não lhe inculcarmos o respeito por valores tão humanos como a verdade, a exactidão ou a curiosidade?». Ah e também de Pitágoras «eduquemos as crianças e não será necessário castigar os homens»

Coragem... pequeno soldado do imenso exército. Os teus livros são as tuas armas, a tua classe é a tua esquadra, o campo de batalha é a terra inteira, e a vitória é a civilização humana" (Amicis, Edmondo in Cuore)

domingo, 19 de junho de 2016

ENSINO: "Caça-fantasmas"




Os exames estão a chegar. E isso é bom. Tenho dito, e reafirmo, que os alunos não merecem a polémica que se foi instalando entre provas de aferição, por um lado, e exames, por outro. Porque à esquerda e à direita, os argumentos escorregam para uma vertigem mais ou menos demagógica, que nenhuma criança merece. E, depois, é muito importante que exista uma amostragem nacional do nível de conhecimentos dos alunos portugueses. Sobretudo se, com isso, se retirarem ilações sobre a qualidade dos conhecimentos que não se resumam, como muitas vezes foi acontecendo, quase exclusivamente, a aumentar-se a carga horária de algumas disciplinas (como se essas, e só essas, fossem indispensáveis para o seu desenvolvimento), deixando conteúdos programáticosformação de professores e a gestão dos tempos, espaços, turmas ou dinâmicas escolares "fora da equação". E se se refletir sobre os níveis, assustadoramente negativos, obtidos nos exames a algumas disciplinas, e sobre a forma com que se podem reverter.

Ora, eu receio que, enquanto a discussão se reparte entre exames e provas de aferição - com algumas pessoas com responsabilidades políticas a apelarem para que não se "traumatize" as crianças com exames e outras, igualmente com poder de decisão, a fazer com que a seriedade do ensino dependa, quase exclusivamente, dos exames - aquilo que esteja à discussão sejam argumentos ideológicos que ganham protagonismo à falta de uma ideia política: sobre as crianças, acerca da família e, evidentemente, a propósito da escola. Serão os exames - nomeadamente em anos de transição de ciclo escolar, por exemplo - uma espécie de referendo ao trabalho que as escolas desenvolvem na preparação dos alunos? Sem dúvida. Será importante que, considerando esse escrutínio (e de forma sensata), se pondere acerca da ponderação equilibrada que eles terão na nota final de um aluno, que lhe confira a importância, relativa, que eles merecem? Claro que sim. Será que os resultados globais dos exames, considerados escola a escola, deveriam servir para escrutinar a seriedade da formação que estão a desenvolver e a honestidade do modo como o fazem? Evidentemente que sim! Não seria, até, engraçado que se fizesse um ranking das escolas pouco amigas dos bons exemplos para as crianças, seriadas a partir das enormes discrepâncias entre as notas que atribuem durante o ano e aquelas que os seus alunos obtêm nos exames nacionais, de forma a que se separe a fraude da seriedade? Claro que sim. E não seria indispensável, que as aulas fossem só aulas e que aquilo que se observa nalgumas escolas - onde a "preparação para os exames" vem, por vezes, do meio do segundo período (com aulas suplementares, substituição de disciplinas consideradas menos preponderantes por outras tidas como fundamentais, e etc.), e atinge dimensões exorbitantes até à data do primeiro exame - não fosse permitido, de forma a que existisse alguma regulação numa amostragem que, de outro modo, parece estar sempre a sofrer manipulações que talvez protejam as escolas mas não protegem os alunos? Acredito que sim. E não seria, finalmente, preciso que se considerasse a nota de um aluno como resultado da parceria que se estabelece entre ele, a família e a escola, em função dos seus conhecimentos e não só dos seus resultados, e se deixasse este péssimo exemplo de, sempre que as notas dele são interessantes, a responsabilidade seja repartida, com muitas escolas a chamarem para si esse mérito; e quando ele reprova, não deixassem de existir algumas associações profissionais de professores a chamarem a atenção para a carência de conhecimentos dos alunos sem que, de forma humilde, proponham formação para alguns dos seus membros (sobretudo quando quem a devia organizar e promover, de forma equilibrada - o ministério da educação - parece ser, com imensa tristeza para todos nós, o campeão dos défices de atenção)? Claro!

Mas, seja como for, os exames estão a chegar. E é altura de terem bom senso. Por mais que os pais - muitos deles (às vezes, a maioria) com experiências escolares muito pouco ganhadoras, e com experiências de avaliação em provas nacionais muito sofridas - ora queiram poupar aos filhos os sofrimentos das suas infâncias e os "fantasmas" que (por causa deles) foram construindo, ora vejam nos exames uma vertigem um bocadinho precipitada de, com o auxílio dos bons resultados que eles obtenham no imediato (seja em que circunstância for), imaginarem um percurso escolar pleno de sucessos (ou, também, por vezes, um aditivo precioso para alguma da sua vaidade). E por mais que os professores, sentindo que (sobretudo, nalgumas escolas) estarão debaixo de um escrutínio sufocante - que faz com que, a partir de fevereiro, alguns vejam dislexia em 85% dos alunos de uma turma (trata-se de um exemplo real!), e outros criem uma pressão às crianças diretamente proporcional ao sufoco com que vivem os resultados dos exames como fator de risco para a sua renovação contratual - nem sempre lidem com os exames com a serenidade que eles talvez não devessem deixar de ter.
É, portanto, altura de vos propor algumas ideias que gostava que considerassem.

1. 
Os exames são um problema! E da mesma forma que uma das funções dos filhos é colocarem problemas aos pais (obrigando-os a resolverem problemas sempre mais complexos de forma, tendencialmente, sempre mais simples), a função da escola é pôr problemas às crianças, dando-lhes argumentos para pensarem sobre eles e para os resolverem (e não as soluções com que se cria uma ideia muito discutível de sucesso). 2. Os exames dão dores de barriga às crianças. E isso é bom. Porque por mais que todos gostássemos que não fosse assim, não há como aprender sem alguma dor. Sendo que quem hoje convive com dores de barriga e encontra forma, nos pais e nos professores, de não soçobrar a elas, amanhã ousa ser mais afoito em vez de fugir aos novos desafios para fugir às dores com que não aprendeu a conviver.3. Nos primeiros exames é saudável que se fique um "bocadinho burro", de vez em quando. E que haja quem se engasgue nas coisas mais simples, enquanto se desembaraça como deve ser em raciocínios mais complexos. Mas os exames são como as vacinas: quanto mais aprendermos a viver com o bocadinho de stress que eles trazem, mais aprenderemos a transformar o que é tóxico em saudável.4. Não é razoável empanturrar, nestas alturas, as crianças com explicações. Aliás, devia ser proibido fazê-lo. Como não é ponderado multiplicar aulas e aulas e mais aulas como se - fossem em vez de provas de aferição ou de exames - estivesse à discussão uma prova de vida e não uma prova de conhecimento. Aliás, sacrificar (em nome de ganhos de curto prazo) argumentos que levedem para a vida não é dos melhores exemplos que se possa dar.

5. É proibido fazer dos exames um exame à inteligência de uma criança. Todas as crianças são inteligentes! Por mais que, por défices na sua formação ou por sobressaltos que tenham ficado da sua experiência escolar, por exemplo, algumas não consigam transformar, num determinado momento, competências em recursos.

6. É saudável que um aluno tenha medo dos exames. Sobretudo porque, como todos nós, terá medo daquilo que não conhece. Mas se fugir do medo é uma belíssima forma de ficar preso a ele, insuflá-lo (como forma de nos tornarmos mais responsáveis diante dele) pressupõe que se não for à boleia de fantasmas ninguém cresce. E aqui as maiores escorregadelas, inteligência-abaixo, não são as das crianças...

7. É imprudente criar uma atmosfera escolar do género: "com os exames é que vocês vão ver!". Transformar um exame num papão é tão sensato como quando, na Idade Média, se dizia que, para além das rotas marítimas que se conheciam, só existiriam monstros e dragões. Tivessem os nossos antepassados a mesma relação com o conhecimento que algumas escolas colocam nos exames e os Descobrimentos portugueses teriam sido uma oportunidade perdida.

8. É proibido proibir de brincar na altura dos exames. Brincar arruma a cabeça, é ansiolítico e antidepressivo. Brincar a sério e livremente. Duas horas por dia. Pelo menos!

9. É proibido recorrer a aditivos sintéticos (psicofármacos, portanto) como forma de ora tornar as crianças, aparentemente, mais seguras, ora fazendo com que pareçam menos tristonhas. A forma imprudente como isso se vai banalizando, em todos os graus de ensino, quase devia merecer um controlo antidoping que, em última circunstância, ganharia se penalizasse - por maus desempenhos - muitos pais.

10. Não são razoáveis comentários alarmistas sobre os exames na escola ou na família. Ou uma atenção inflamatória do género: "estás nervoso?..." Ou um silêncio que pretende disfarçar a tensão da família diante dos exames, quando a vida se faz com eles. As crianças percebem muito bem aquilo que estáà discussão num exame. Só não percebem porque é que quem as devia sossegar dos seus medos lhos impinge em demasia.

11. Não é, finalmente, ponderado transformar as crianças em caça-fantasmas dos pais ou das escolas a propósito dos exames. E não é, obviamente, uma catástrofe que elas cresçam conhecendo os medos de quem as educa. Mas não é prudente projetar sobre elas todos eles, esperando que sejam as crianças a ultrapassar com os seus desempenhos, num determinado momento, todos os fantasmas em torno da escola e dos exames que as pessoas crescidas foram acumulando ao longo dos anos.

12. Os exames estão a chegar. E isso é bom! Mau de verdade é que quem os torna assustadores como fantasmas pareça, por vezes, ter vindo para ficar.

domingo, 29 de maio de 2016

ENSINO: "não sei, não consigo e não sou capaz"

Todas as crianças têm um bocadinho de medo ao chegarem à hora de mostrarem do que são capazes. E isso não é mau. Mas há crianças que, de medo em medo, ficam tão assustadiças que passam a ter medo... de ter medo.
E aqui, sim, tudo se complica. Sobretudo quando todos os momentos dedicados aos trabalhos de casa e a breves passagens por um livro ou outro são acompanhadas por reivindicações, mais ou menos desesperadas, de "não sei, não consigo e não sou capaz!" (que acabam no mais famoso de todos os adocicados desabafos maternos: "ele só trabalha se estiver ao pé de mim...").
Pelo caminho, foram ficando os primeiros sinais de que alguma coisa teria de mudar: ou através da forma como, à medida que iam reclamando que tudo era difícil, as crianças foram fazendo escolhas de conveniência, sempre com o "mais fácil" à frente de tudo; ou da maneira como, sejam as perguntas de desenvolvimento ou as composições escritas, elas vão oscilando entre respostas que variam entre o "minimalista" e o telegráfico. Para continuar a ler, clicar AQUI

sábado, 28 de maio de 2016

inPRENSA:

Ensinar matemática e dar uma mesada é uma boa forma de introduzir o dinheiro às crianças. Para saber mais, clicar AQUI.


Em Portugal, 14% dos alunos dizem sentir-se infelizes na escola e, segundo um estudo do Conselho Nacional de Educação (CNE), os estudantes menos felizes têm piores resultados académicos. Para saber mais, clicar AQUI.


As crianças de uma aldeia chinesa enfrentam um penhasco de 800 metros para conseguir ir à escola. Para saber mais, clicar AQUI ou AQUI.

quinta-feira, 26 de maio de 2016

REFLEXÃO/MEDITAÇÃO/ATENÇÃO: Jovens entre incredulidade e (novo) fascínio da fé

«Na tua opinião, o que há de belo no crer?». Dos 150 inquiridos, só oito responderam que não há nada de belo. Para os outros 142, crentes ou não crentes, crer é belo porque dá esperança, permite nunca sentir-se só, ter um sentido para a própria vida. Dito por jovens que não acreditam, parece revelar uma nostalgia de Deus que comove e faz pensar. Para saber mais, clicar AQUI.

quarta-feira, 25 de maio de 2016

inPRENSA: O papel principal

Os exames, o número de alunos por turma, os horários, a carga letiva e não letiva, os manuais, as horas de trabalho dos professores e as horas de estudo dos alunos. Discute-se tudo em educação exceto a própria educação. O que requer uma reflexão profunda e urgente - a forma desajustada da realidade como tentamos ensinar os miúdos, recorrendo a métodos com mais de 50 anos num mundo que se alterou radicalmente - é o único tema que parece não merecer a atenção entre quem define o que é preciso meter na cabeça das crianças. Para continuar a ler, clicar AQUI.

terça-feira, 24 de maio de 2016

ENSINO: Jogos digitais são cada vez mais usados nas escolas

Se o mundo em que as crianças crescem é digital, o ensino caminha para lá. Só neste ano, o governo lançou iniciativa, combinando programação e jogos, para 27 mil alunos. Para continuar a ler, clicar AQUI.

segunda-feira, 23 de maio de 2016

inPRENSA: Portugal tem quatro campeões mundiais em cálculo mental

Quatro estudantes portugueses, dois deles de Abrantes, conquistaram este ano o título de campeões mundiais de cálculo mental no SuperTmatic, nos respetivos escalões, tendo João Bento, de 14 anos, conquistado o título mundial pelo terceiro ano consecutivo. Para saber mais, clicar AQUI.

sexta-feira, 20 de maio de 2016

FORMAÇÃO: Papa desafia jovens insatisfeitos com «consumismo» a deixar tudo e a «queimar» a vida

«Queria dizer aos rapazes e às raparigas de hoje que não se sentem bem – “não sou muito feliz com esta cultura do consumismo, do narcisismo”: Olhai o horizonte. Olhai para lá, olhai para estes nossos missionários.» «[“Queimar”] é uma palavra um pouco dura, mas a vida vale a pena vivê-la. Mas para a viver bem, é preciso queimá-la no serviço, no anúncio, e ir em frente.». Para saber mais, clicar AQUI.

terça-feira, 17 de maio de 2016

FORMAÇÃO:“A República de Abril ofereceu as liberdades mas esqueceu-se de criar cidadãos”

Ramalho Eanes foi o grande homenageado no encontro com jovens que marcou o arranque das comemorações dos 40 anos das primeiras eleições presidenciais. Pediu que o provocassem, mas foi ele o maior provocador...Ramalho Eanes, o primeiro Presidente da República em democracia (1976-1986), defende que a revolução de abril "oferece todas as liberdades, mas esqueceu-se que é necessário criar cidadãos". Para saber mais, clicar AQUI.


Apesar dos progressos feitos, falta cumprir a democracia e essa passa por um trabalho de formação cívica que deve iniciar-se bem cedo e que mal irá se se limitar a um conjunto de informações e conhecimentos sobre o funcionamento das sociedades democráticas. Para saber mais, clicar AQUI.

domingo, 1 de maio de 2016

inPRENSA: Aprender a aprender

Aprender a gostar de ler. É esta a competência mais importante que um professor tem de passar aos alunos. Não importa se a aula é de Português, de História ou de Matemática, saber ler - não juntar letras mas entender, interpretar, imaginar - é fundamental. Não é que seja impossível, mas sem esse talento é dez vezes mais difícil desvendar a solução dos problemas matemáticos, perceber a história universal, saber porque faz mais calor em África do que na Islândia. Para continuar a ler, clicar AQUI.