Passo a explicar. Para tal, servir-me-ei das palavras de Fernando Savater, filósofo e grande pedagogo espanhol, no seu livro "O Valor de Educar" [pp.52-54]. São elas que melhor dirão dos objectivos & intenções deste blogue. Ei-las:
«Em linhas gerais, a educação, orientada para a formação da alma e para a transmissão do respeito pelos valores morais e patrióticos foi sempre considerada de um nível superior ao da instrução, destinada a dar a conhecer competências técnicas ou teorias científicas. (...)
Em contraposição, educação versus instrução, parece hoje notavelmente obsoleta e bastante enganadora. (...). Sucede ainda que separar a educação da instrução se mostra não só indesejável, mas igualmente impossível, uma vez que não se pode instruir sem educar e vice-versa. Como poderemos transmitir valores morais ou de cidadania sem recorrermos a informações históricas, sem termos em conta as leis em vigor e o sistema de governo estabelecido, sem falarmos de outras culturas e países, sem reflectirmos, por elementarmente que seja, sobre a psicologia e a fisiologia humanas ou em empregarmos algumas noções de informação filosófica? E como poderemos instruir alguém em matéria de conhecimentos científicos, se não lhe inculcarmos o respeito por valores tão humanos como a verdade, a exactidão ou a curiosidade?». Ah e também de Pitágoras «eduquemos as crianças e não será necessário castigar os homens»

Coragem... pequeno soldado do imenso exército. Os teus livros são as tuas armas, a tua classe é a tua esquadra, o campo de batalha é a terra inteira, e a vitória é a civilização humana" (Amicis, Edmondo in Cuore)

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quarta-feira, 8 de julho de 2020

Digam-nos, por favor, com que escola podemos contar?

Estamos em finais de Junho. Daqui a pouco mais de 2 meses estamos no regresso à escola. E é inacreditável, considerando aquilo que as melhores perspectivas pandémicas nos permitem ou (plano B) a perspectiva duma segunda vaga de infecção, que não se inicie um debate público urgente que vá no sentido de estarmos esclarecidos acerca da escola que vamos ter em Setembro (por mais que as incertezas deste tempo sejam muitas). Sabendo nós que a escola não será (mais) igual à escola que tínhamos em Março. Para saber mais clicar AQUI.

domingo, 16 de junho de 2019

quarta-feira, 18 de abril de 2018

EFEMÉRIDE/CELEBRAÇÃO: Dia Internacional do Livro Infantil

Três bons e, por isso, recomendáveis, artigos. Assim:
1º. "Um bom livro é aquele que respeita a criança como um ser integral" AQUI.
. "Os livros são pessoais e intransmissíveis" AQUI.
. "Leitura e emoção" AQUI.

domingo, 8 de abril de 2018

ENSINO: "Bandeira azul" das escolas arranca com 800 candidaturas

Iniciativa Escola Amiga das Crianças, proposta pelo psicólogo Eduardo Sá e apadrinhada pela Confederação Nacional das Associações de Pais, quer ser alternativa a rankings. Para saber mais, clicar AQUI.

terça-feira, 23 de janeiro de 2018

inPRENSA : O embrulho azul & Mau trato com patrocínio

O embrulho azul
Cruzei-me com o espectro numa manhã de tempestade. Seguia de carro, mas devagar. Porque a rua, naquele troço, é estreita; porque constituía um obstáculo; porque chovia a cântaros e a visibilidade era escassa. O que me fez olhar, para além de ver, não foi tanto o facto de ser um ciclista em dia de temporal. O que me fez olhar foi o formato do embrulho azul, em plástico impermeável, na parte de trás da bicicleta. Era estranho, porque terminava em cone. Para saber mais, clicar AQUI.
Mau trato com patrocínio
"Estreou, recentemente, na SIC, o programa Supernanny. No contexto de cada episódio, e em presença de uma “ama”, é exposta uma situação problemática da vida diária de uma criança e colocados à discussão os desempenhos dos pais em relação aos seus filhos, com centenas de milhares de pessoas a ver. Para saber mais, clicar AQUI.

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

FORMAÇÃO&EDUCAÇÃO: Conferência «Retrato de Família»

No passado dia 11 de outubro, a Notícias Magazine convidou os leitores para uma grande conferência sobre as famílias portuguesas e contou com a presença do jornalista Marcos Piangers, do psicólogo Eduardo Sá e da terapeuta Constança Ferreira. Para saber mais, clicar AQUI.

terça-feira, 12 de setembro de 2017

ENSINO&EDUCAÇÃO: Muita concentração-Eduardo Sá

Que, a propósito da Escola, se fale quase unicamente de alunos e quase nunca de estudantes a mim já me preocupa. Porque, feitas as contas, parece que a Escola está mais virada para cumprir objetivos do que para estudar e para aprender. Mas que, quase por tudo e por nada, se remeta para a “falta de concentração” todos e mais alguns sobressaltos escolares de uma criança ou de um adolescente, a mim já me alarma. De verdade.

Dramaticamente, parece-me que a bênção preciosa que é estudar - “estudar um problema” - está em desuso. A partir do momento que às crianças e aos adolescentes deixou de ser permitido “estudar um problema”. Olhá-lo, de diversas perspetivas. Formulá-lo mil vezes até que, de síntese em síntese, ele seja concebido de uma forma tão simples, tão óbvia, e com todas as operações que o ligam tão ajustadas umas às outras, numa sequência tão compreensível, que até parece que ele se resolve sozinho. Na verdade, só quando nos perdemos no “labirinto” de um problema é que mobilizamos recursos para o resolver. E só quando somos “atacados” pelo “nervoso miudinho”, sempre que ele parece ininteligível, é que a solução a que chegamos se aprende para sempre.

Ora, eu acho que se há alguém hiperativo no sistema educativo esse “alguém” são as pessoas que o pensam. E nisso de défices de atenção estão muito à frente dos demais. Porque talvez tenham uma ideia muito ansiolítica do conhecimento e uma “vertigem” muito próxima do “aprender sem dor” que estraga tudo. Na verdade, se há alguém com “necessidades educativas (muito) especiais” na educação quem a tem vindo a pensar talvez nos bata a todos. Porque despreza a matéria-prima (sublime!) que toda a miudagem traz quando chega à escola. Porque despreza a generosidade dos professores e a sua bondade, e os desconsidera de inúmeras formas, nomeadamente, quando lhes nega a formação que os auxilie na sua missão. E porque “esquece” que, muito mais importante do que cumprir, obsessivamente, objetivos, metas curriculares e rankings será encontrar perguntas, pôr problemas, tocar para descobrir e, é claro, estudar. Por outras palavras: uma escola que renuncie ao tempo que tudo isto exige - por mais que, se se for por aqui, se aprenda para sempre - é uma escola que prefere os sabidos e os sabichões aos sábios. E, como não me canso de repetir, devia “fechar para balanço”. Porque desconhece as crianças para quem trabalha. Ignora o mundo em que elas vivem. Manifesta uma gritante incapacidade para “ler o futuro”. Supõe que quem se afirma na sua singularidade e quem muda o mundo são os “produtos normalizados”, as “tabelas de Excel” e os tecnocratas. E despreza os danos com que as onera, sempre que “espatifa” os recursos comoventes e quase inesgotáveis com que as crianças lá chegam. Pode uma escola, “incansavelmente repetente” nos seus erros, ser um local acolhedor e recomendável para quem a quer como “um mundo de portas abertas” para aprender? Não! Aliás, se não fosse o mundo com que chegam à escola e eu receio que as dificuldades de aprendizagem das crianças seriam, ainda, mais gritantes.

É nesta “amálgama” de mal-entendidos que os nossos filhos vivem na escola. Compenetrados - diga-se - com aquilo que está em jogo. E com uma determinação insaciável e incansável para aprenderem. E é a partir daqui que se sucedem os alegados “defeitos de fabrico” com que a Escola se desculpa dos seus insucessos. Hoje, deixarei de parte as “epidemias atípicas” de hiperatividade com défices de atenção e a dislexia, e os planos educativos que elas suscitam sobretudo quando algumas escolas pretendem criar condições desonestas que, muito mais do que protegerem as crianças, criam condições para utilizar os rankings como “imagem de marca”, muito mais amiga do marketing e da concorrência desleal que do conhecimento. Que não se faça disso uma “regra” para todos esses planos, esclareça-se. Mas que não se presuma que, criados com essa intenção, esses planos educativos são muito, muito raros.

Centremo-nos, então, em três outras “causas” para as dificuldades de aprendizagem das crianças. A alegação de que serão “infantis”, têm “falta de maturidade” e “dificuldades de concentração”. É verdade - eu reconheço - todas as crianças são infantis! É um direito que lhes assiste! São ingénuas e crédulas. Têm amor pela vida e pelo conhecimento. Reconhecem que tudo aquilo que aprendem tem um rosto, diante do qual - e em função da forma como essas pessoas lhes pegam pela mão, as ajudam a ultrapassar obstáculos e as levam da obscuridade ao conhecimento - se tornam gratas, para sempre. Nunca se esquecem que compreender é cooperar. Para além de, recorde-se, adorarem encontrar perguntas, pôr problemas, tocarem para descobrir e, é claro, estudar. E todas têm falta de maturidade. Eu subscrevo!… Aliás, pergunto-me eu, quem não a terá? Aqueles que, sendo pais ou professores, consideram que as “qualidades infantis” são um exclusivo das crianças, “fora de prazo” nalguns adultos? Dir-me-ão que haverá crianças num primeiro ano de escolaridade, por exemplo, que talvez não reúnem os requisitos indispensáveis para entrarem no ensino básico? É verdade. Mas será a “falta de maturidade” um argumento tão transversal às crianças que parecem não aprender? E será a “falta de maturidade”, a ser argumento, uma característica exclusiva dos estudantes à qual o sistema educativo, ele próprio, é estranho?

Mas fiquemo-nos, agora, quase exclusivamente, nas “dificuldades de concentração”. Será que aquilo a que a Escola chama “falta de concentração” significa que estas crianças são, todas invariavelmente, desatentas? E não é verdade que, a maioria delas, acaba por ser atentíssima e estar concentradíssima sempre que um assunto lhes desperta a curiosidade? De que forma liga o sistema educativo a concentração dos estudantes com a descoberta da curiosidade que a Escola lhes traz? A “falta de concentração” acaba por ser um argumento onde se abrigam manifestações tão diversas como aquelas que as crianças vivas e irreverentes têm, em contexto escolar, como aquelas que as crianças inseguras e fóbicas manifestam. Como aquelas que as crianças impulsivas não deixam de ter. Como as que as crianças deprimidas também têm. Ou como crianças com quadros psicológicos muito graves também têm. Ou seja, “debaixo” deste “guarda-chuva” estão desde as crianças de “cabeça no ar”, saudáveis, atentas e muito concentradas (sempre que haja quem lhe “cative” a atenção), como as crianças, psicologicamente, muito doentes. Será que toda essa “falta de concentração” será idêntica, nas suas causas e nas respetivas consequências? Será que à “falta de concentração” dos estudantes serão sempre alheios os programas curriculares, a gestão dos tempos escolares e a capacidade de encantamento que um professor consegue mobilizar, quando lhes fala seja do que for? Será razoável que, de forma geralmente apressada, perante as dificuldades escolares de um estudante, sejam elas circunstanciais ou não, que a Escola remeta para ele - e, sobretudo, para ele - a responsabilidade de as resolver? E será equilibrado que, diante delas, seja cada vez mais banal a forma como se recorre aos mesmos comprimidos para a “concentração”, sem que a Escola ou os pais se coloquem em questão, tanto como deviam? E é sensato, que sejam alguns professores a “prescrever” “a pessoa certa” que, seguramente, lhos receitará? Como pode uma escola que tenta, vezes demais, soluções simplistas para problemas complexos - e é recorrente na forma como evita problemas - tomar a “concentração” dos estudantes como um belíssimo exemplo de um problema que pretende estudar, olhá-lo, de diversas perspetivas, formulá-lo mil vezes até que, de síntese em síntese, ele seja concebido de uma forma tão simples, tão óbvia, e com todas as operações que o ligam tão ajustadas umas às outras, numa sequência tão compreensível, que até parece que ele se resolve sozinho? Se a Escola não estuda os problemas com que convive é legítimo que exija aos estudantes aquilo que não faz?

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

ENSINO: O futuro é dos esquisitos

É verdade que, em muitos momentos, eu afirmo que os professores são pessoas "esquisitas". É claro que considerá-los dessa forma não pretende desconsiderá-los. Muito pelo contrário.
Será, simplesmente, uma forma um bocadinho provocatória de enaltecer a dedicação de inúmeros professores em relação ao ensino, à escola e aos seus alunos.
Há, no entanto, um grupo de outros agentes do universo educativo que consegue ser, ainda, mais "esquisito" que os professores. Estou a referir-me às associações de pais.
Haverá outros grupos que, sendo considerados como parceiros, sejam, repetidamente, confrontados com "factos consumados" de que os seus filhos são vítimas sem que, contudo, sejam chamados a pensar a educação, a colaborar em reformas ou a contribuir para que se encontrem medidas educativas e permaneçam sem esmorecerem e sem se renderem?
Para saber mais, clicar AQUI.


sábado, 2 de julho de 2016

ENSINO: "Preguicite"

Dos estados inflamatórios, de origem desconhecida, que mais assolam as crianças em idade escolar, a preguicite aguda será dos piores. Destaca-se sobre os episódios “virusais” de gripe porque, ao contrário deles, não surge acompanhado nem por febre alta nem por dores generalizadas no corpo, chegando a assumir-se (dependendo das disciplinas, dos projetos educativos e de um ou outro professor) como uma verdadeira epidemia atípica, muito frequente entre os 6 e os 18 anos, temendo-se que a estirpe do micróbio que parece gerá-la seja, inclusive, multirresistente. Para saber mais, clicar AQUI                   

domingo, 19 de junho de 2016

ENSINO: "Caça-fantasmas"




Os exames estão a chegar. E isso é bom. Tenho dito, e reafirmo, que os alunos não merecem a polémica que se foi instalando entre provas de aferição, por um lado, e exames, por outro. Porque à esquerda e à direita, os argumentos escorregam para uma vertigem mais ou menos demagógica, que nenhuma criança merece. E, depois, é muito importante que exista uma amostragem nacional do nível de conhecimentos dos alunos portugueses. Sobretudo se, com isso, se retirarem ilações sobre a qualidade dos conhecimentos que não se resumam, como muitas vezes foi acontecendo, quase exclusivamente, a aumentar-se a carga horária de algumas disciplinas (como se essas, e só essas, fossem indispensáveis para o seu desenvolvimento), deixando conteúdos programáticosformação de professores e a gestão dos tempos, espaços, turmas ou dinâmicas escolares "fora da equação". E se se refletir sobre os níveis, assustadoramente negativos, obtidos nos exames a algumas disciplinas, e sobre a forma com que se podem reverter.

Ora, eu receio que, enquanto a discussão se reparte entre exames e provas de aferição - com algumas pessoas com responsabilidades políticas a apelarem para que não se "traumatize" as crianças com exames e outras, igualmente com poder de decisão, a fazer com que a seriedade do ensino dependa, quase exclusivamente, dos exames - aquilo que esteja à discussão sejam argumentos ideológicos que ganham protagonismo à falta de uma ideia política: sobre as crianças, acerca da família e, evidentemente, a propósito da escola. Serão os exames - nomeadamente em anos de transição de ciclo escolar, por exemplo - uma espécie de referendo ao trabalho que as escolas desenvolvem na preparação dos alunos? Sem dúvida. Será importante que, considerando esse escrutínio (e de forma sensata), se pondere acerca da ponderação equilibrada que eles terão na nota final de um aluno, que lhe confira a importância, relativa, que eles merecem? Claro que sim. Será que os resultados globais dos exames, considerados escola a escola, deveriam servir para escrutinar a seriedade da formação que estão a desenvolver e a honestidade do modo como o fazem? Evidentemente que sim! Não seria, até, engraçado que se fizesse um ranking das escolas pouco amigas dos bons exemplos para as crianças, seriadas a partir das enormes discrepâncias entre as notas que atribuem durante o ano e aquelas que os seus alunos obtêm nos exames nacionais, de forma a que se separe a fraude da seriedade? Claro que sim. E não seria indispensável, que as aulas fossem só aulas e que aquilo que se observa nalgumas escolas - onde a "preparação para os exames" vem, por vezes, do meio do segundo período (com aulas suplementares, substituição de disciplinas consideradas menos preponderantes por outras tidas como fundamentais, e etc.), e atinge dimensões exorbitantes até à data do primeiro exame - não fosse permitido, de forma a que existisse alguma regulação numa amostragem que, de outro modo, parece estar sempre a sofrer manipulações que talvez protejam as escolas mas não protegem os alunos? Acredito que sim. E não seria, finalmente, preciso que se considerasse a nota de um aluno como resultado da parceria que se estabelece entre ele, a família e a escola, em função dos seus conhecimentos e não só dos seus resultados, e se deixasse este péssimo exemplo de, sempre que as notas dele são interessantes, a responsabilidade seja repartida, com muitas escolas a chamarem para si esse mérito; e quando ele reprova, não deixassem de existir algumas associações profissionais de professores a chamarem a atenção para a carência de conhecimentos dos alunos sem que, de forma humilde, proponham formação para alguns dos seus membros (sobretudo quando quem a devia organizar e promover, de forma equilibrada - o ministério da educação - parece ser, com imensa tristeza para todos nós, o campeão dos défices de atenção)? Claro!

Mas, seja como for, os exames estão a chegar. E é altura de terem bom senso. Por mais que os pais - muitos deles (às vezes, a maioria) com experiências escolares muito pouco ganhadoras, e com experiências de avaliação em provas nacionais muito sofridas - ora queiram poupar aos filhos os sofrimentos das suas infâncias e os "fantasmas" que (por causa deles) foram construindo, ora vejam nos exames uma vertigem um bocadinho precipitada de, com o auxílio dos bons resultados que eles obtenham no imediato (seja em que circunstância for), imaginarem um percurso escolar pleno de sucessos (ou, também, por vezes, um aditivo precioso para alguma da sua vaidade). E por mais que os professores, sentindo que (sobretudo, nalgumas escolas) estarão debaixo de um escrutínio sufocante - que faz com que, a partir de fevereiro, alguns vejam dislexia em 85% dos alunos de uma turma (trata-se de um exemplo real!), e outros criem uma pressão às crianças diretamente proporcional ao sufoco com que vivem os resultados dos exames como fator de risco para a sua renovação contratual - nem sempre lidem com os exames com a serenidade que eles talvez não devessem deixar de ter.
É, portanto, altura de vos propor algumas ideias que gostava que considerassem.

1. 
Os exames são um problema! E da mesma forma que uma das funções dos filhos é colocarem problemas aos pais (obrigando-os a resolverem problemas sempre mais complexos de forma, tendencialmente, sempre mais simples), a função da escola é pôr problemas às crianças, dando-lhes argumentos para pensarem sobre eles e para os resolverem (e não as soluções com que se cria uma ideia muito discutível de sucesso). 2. Os exames dão dores de barriga às crianças. E isso é bom. Porque por mais que todos gostássemos que não fosse assim, não há como aprender sem alguma dor. Sendo que quem hoje convive com dores de barriga e encontra forma, nos pais e nos professores, de não soçobrar a elas, amanhã ousa ser mais afoito em vez de fugir aos novos desafios para fugir às dores com que não aprendeu a conviver.3. Nos primeiros exames é saudável que se fique um "bocadinho burro", de vez em quando. E que haja quem se engasgue nas coisas mais simples, enquanto se desembaraça como deve ser em raciocínios mais complexos. Mas os exames são como as vacinas: quanto mais aprendermos a viver com o bocadinho de stress que eles trazem, mais aprenderemos a transformar o que é tóxico em saudável.4. Não é razoável empanturrar, nestas alturas, as crianças com explicações. Aliás, devia ser proibido fazê-lo. Como não é ponderado multiplicar aulas e aulas e mais aulas como se - fossem em vez de provas de aferição ou de exames - estivesse à discussão uma prova de vida e não uma prova de conhecimento. Aliás, sacrificar (em nome de ganhos de curto prazo) argumentos que levedem para a vida não é dos melhores exemplos que se possa dar.

5. É proibido fazer dos exames um exame à inteligência de uma criança. Todas as crianças são inteligentes! Por mais que, por défices na sua formação ou por sobressaltos que tenham ficado da sua experiência escolar, por exemplo, algumas não consigam transformar, num determinado momento, competências em recursos.

6. É saudável que um aluno tenha medo dos exames. Sobretudo porque, como todos nós, terá medo daquilo que não conhece. Mas se fugir do medo é uma belíssima forma de ficar preso a ele, insuflá-lo (como forma de nos tornarmos mais responsáveis diante dele) pressupõe que se não for à boleia de fantasmas ninguém cresce. E aqui as maiores escorregadelas, inteligência-abaixo, não são as das crianças...

7. É imprudente criar uma atmosfera escolar do género: "com os exames é que vocês vão ver!". Transformar um exame num papão é tão sensato como quando, na Idade Média, se dizia que, para além das rotas marítimas que se conheciam, só existiriam monstros e dragões. Tivessem os nossos antepassados a mesma relação com o conhecimento que algumas escolas colocam nos exames e os Descobrimentos portugueses teriam sido uma oportunidade perdida.

8. É proibido proibir de brincar na altura dos exames. Brincar arruma a cabeça, é ansiolítico e antidepressivo. Brincar a sério e livremente. Duas horas por dia. Pelo menos!

9. É proibido recorrer a aditivos sintéticos (psicofármacos, portanto) como forma de ora tornar as crianças, aparentemente, mais seguras, ora fazendo com que pareçam menos tristonhas. A forma imprudente como isso se vai banalizando, em todos os graus de ensino, quase devia merecer um controlo antidoping que, em última circunstância, ganharia se penalizasse - por maus desempenhos - muitos pais.

10. Não são razoáveis comentários alarmistas sobre os exames na escola ou na família. Ou uma atenção inflamatória do género: "estás nervoso?..." Ou um silêncio que pretende disfarçar a tensão da família diante dos exames, quando a vida se faz com eles. As crianças percebem muito bem aquilo que estáà discussão num exame. Só não percebem porque é que quem as devia sossegar dos seus medos lhos impinge em demasia.

11. Não é, finalmente, ponderado transformar as crianças em caça-fantasmas dos pais ou das escolas a propósito dos exames. E não é, obviamente, uma catástrofe que elas cresçam conhecendo os medos de quem as educa. Mas não é prudente projetar sobre elas todos eles, esperando que sejam as crianças a ultrapassar com os seus desempenhos, num determinado momento, todos os fantasmas em torno da escola e dos exames que as pessoas crescidas foram acumulando ao longo dos anos.

12. Os exames estão a chegar. E isso é bom! Mau de verdade é que quem os torna assustadores como fantasmas pareça, por vezes, ter vindo para ficar.